Eleições OA 2016 (II): Eleições Sem Debates, Estaremos a Tentar Inspirar os “Geeks” da Web Summit?

Se houve evento que entusiasmou a sociedade portuguesa no último mês, em particular os nossos políticos e empreendedores, foi a famosa “Web Summit”, que se realizou em Lisboa entre os dias 7 a 10 deste mês. De acordo com os dados oficiais, esta conferência internacional de tecnologia juntou na capital portuguesa mais de 50 mil pessoas, provenientes de 166 países diferentes, quase 1.500 start-ups e cerca de 1300 investidores.

Este entusiasmo tecnológico da Web Summit cruzou-se, pelo menos temporalmente, com o entusiasmo eleitoral que se vive na Ordem dos Advogados, onde no próximo dia 18 de novembro se realizarão as eleições para Bastonário/Conselho Geral, Conselho Fiscal, Conselhos Regionais e Conselhos de Deontologia.

Se no âmbito do primeiro se aguardavam novidades tecnológicas, produtos inovadores, discussões e reflexões sobre inovação e futuro, no âmbito do segundo esperavam-se debates entre candidatos, apresentação de propostas e informação dos eleitores.

Não tenho dúvidas que se perguntar a cada um dos que leem este artigo em qual dos dois certames teria existido mais trocas de ideias virtuais e publicitação digital de informações e em qual teria existido mais debates e mais encontros presenciais, seguramente que a Web Summit venceria quanto à primeira questão e as eleições para a Ordem dos Advogados à segunda. Afinal, quem haveria de pensar que num ato eleitoral de uma instituição de 90 anos se iria discutir mais “on-line” que num jovem evento que reúne “geeks” apaixonados por tecnologia?

Contudo, paradoxalmente, ou não, a verdade é que a realidade aponta exatamente no sentido oposto:

os “geeks” da tecnologia viajaram dos quatro cantos do Mundo para se juntarem em Lisboa, enquanto que aqueles que querem dirigir a histórica Ordem dos Advogados não o conseguiram fazer, até à data, nem em Lisboa, nem noutro local qualquer.

Na verdade, o Web Summit, garantem-me os que lá foram, foi mesmo uma grande reunião de pessoas, que in loco apresentaram ideias, debateram a evolução tecnológica, trocaram contactos e projetaram o futuro. Já as eleições na Ordem dos Advogados estão a ser marcadas precisamente pela falta de encontros, pela falta de debates (especialmente entre os quatro candidatos a Bastonário) e por uma avalanche de discussões eleitorais online e de divulgação eletrónica de propostas.

Acredito que ninguém no seu perfeito juízo possa considerar aceitável a situação que descrevo no que à Ordem dos Advogados diz respeito, pois neste momento há milhares – sim, milhares – de advogados que não sabem, sequer, quem são os candidatos em quem poderão votar no dia 18 de novembro (isto para aqueles que já não o fizeram por correspondência, limitando-se a devolver à procedência um conjunto de envelopes vazios).

Perante este verdadeiro nonsense a que assistimos na Ordem dos Advogados, a dúvida que me assalta o espírito é se andaremos a tentar inspirar os “geeks” da Web Summit para que desenvolvam novos produtos tecnológicos para nos ajudar em futuras eleições e, desse modo, os entusiasmamos para as futuras edições deste evento que se realizarão no nosso país.

Será que estamos a instigar os empreendedores a desenvolver “aplicações” que permitam fazer debates eleitorais por hologramas, “chats” que permitam debates sonoros (pré-gravados, em tempo real ou até ao retardador) ou mesmo debates entre robôs?

Se for este o caso, deixo desde já a indicação da start-up portuguesa “DefinedCrowd”, uma das empresas que participou no Web Summit, cuja CEO (Daniela Braga) explicou em entrevista ao Jornal de Negócios que “está a ensinar os robôs a falar” e que estes “vão começar a substituir-nos nas tarefas em casa”. Se em 2016 já transporta esta ambição, quem sabe não se entusiasma na criação de robôs que nos substituam nas “tarefas eleitorais” já para 2019… talvez garantisse apoio jurídico pro-bono para as “rondas de investimento” imprescindíveis neste mundo do empreendedorismo e das start-ups (!).

Se a situação não fosse séria e grave daria para rir. Sendo séria e grave, como é, pelo potencial impacto que terá na legitimidade daqueles que irão assumir funções na Ordem dos Advogados, em particular aquele que vier a ser eleito o “advogado dos advogados”, só nos pode preocupar… e muito!

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